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Fragmentos Irreligiosos V

O darma dos budas de todos os tempos é um ensinamento que vê tudo que temos como verdade como meras ilusões e criações da nossa confusão existencial. Essa própria doutrina nasce da confusão existencial de quem a escreveu (um corpo de monges celibatários num período próximo ao começo da era cristã). Nada poderia ser mais fantasioso que esse tipo de visão que confunde delírios sugestionados de ascetas famintos e com privação de sono com algum tipo de revelação. Talvez fosse conveniente num tempo de miséria, exploração e guerras brutais negar a existência do mundo e da realidade do próprio eu. A partir dessas doutrinas que desprezam a vida natural, se construiu um monumento à míngua da humanidade, à demolição de seu potencial como espécie e um amor à aniquilação da própria existência. Ora, Nibbana significa "aniquilação", o mesmo que ir além dessa existência. É, essencialmente, um culto do além-vida como uma promessa de cessação de nossos infortúnios. Daí que os sistemas de medi...

Como é a vida sem religião

Eu já não tenho paciência para meias palavras. Prefiro o jogo limpo: são bobagens ideias religiosas que ontem eu defendia. Não me envergonho de ter modificado minhas opiniões muitas vezes a longo da vida. Tudo isso está indo numa direção de mais clareza e bom-senso, uma depuração. Por exemplo, antes de ser budista, eu acreditava num universalismo "salada mística". Cabala, espiritismo, hinduísmo, Osho: pode mandar. Tudo é válido. Só que isso tem uma consistência de diarreia, porque cada um fala uma coisa e nada faz sentido. Eu sentia que estava, no fundo, falando um monte de bobagens bonitinhas e superficiais. O universalismo é superficial.  O budismo é coerente internamente como um sistema fechado em si mesmo, algo que tem uma direção mais ou menos definida, apesar das centenas de seitas budistas acrescentarem a confusão sectária. Às vezes, pensando em ter acreditado em coisas como carma e autorregulação cósmica da justiça moral, fico decepcionado comigo mesmo e penso como pu...

Materialismo e maravilhamento

Pergunta: O materialismo não é muito seco e desprovido de poesia? Sigo uma religião pela beleza de suas narrativas e pela singeleza de suas mensagens. Eu: A pessoa materialista tem um maravilhamento com a vida até maior que uma pessoa iludida. Não precisa de personagen e de simplificar as complexidades. O pensamento desejoso não tenta moldar nem o cosmo nem a natureza humana com delírios que na verdade são feios e fadados a se tornar a zombaria de gerações vindouras. Os mistérios do universo encantam. A poesia da natureza é muitas vezes mais surpreendente que a imaginação dos teólogos e místicos. Estes tem uma criatividade bem lamentável, na verdade  Um poema: O sábio do Tibete ou da Índia num tempo de Govinda e Gopala prega um vazio um tanto vago, que não me parede nada: "Não tente nada, não deseje nada. Esteja sempre na mente pura sem um grão de poeira, sem desejar nem adicionar." Sinto muito, não sou estátua. Que o vazio é vazio, todos sabem e que sua mente é vazia  já sus...

Fragmentos irreligiosos IV

 Fora do materialismo como perspectiva para compreender não somente a economia e a sociedade, mas também as ideologias e a metafísica estão concepções idealistas, nas quais as superstições e os mitos estão como elegantes convidados. Em tempos de mais esclarecimento e do avanço das ciências como modelos explicativos satisfatórios, o mito agora ganha um verniz de crença inofensiva que anda de mãos com a ciência. Supõe-se que deveríamos esquecer que por milênios a religião foi a causa de muitos limites ao livre pensamento e ao avanço de nossa compreensão do universo, e até de filosofias satisfatórias para lidar com questões espirituais da humanidade.  É preciso dizer de novo e de novo à exaustão: as crenças no sobrenatural, em darmas (leis cósmicas), na magia, na oração, em divindades, espíritos, demônios e possessão, assim como numa essência humana segundo a descrição dos textos religiosos são obstáculos para o desenvolvimento de nosso conhecimento. Não se tratam de questões nat...

Ateísmo e agnosticismo

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  Esse gráfico é fonte de erros conceituais. A imagem representa um gráfico de dois eixos: um deles é teísta-ateísta, que representa a crença e não-crença em deus, e o outro gnóstico-agnóstico, que representa certeza ou incerteza. Daí gera as combinações: gnóstico teísta, agnóstico teísta, gnóstico ateísta e agnóstico ateísta. Ser teísta ou ateísta não implica 100% de crença na hipótese 'deus existe' ou 'não existe'. Somente uma pessoa muito equivocada (e/ou alucinada, no caso teísta) poderia achar que existam provas concretas para a certeza total. Na negativa da existência de algo, seja deus ou unicórnios, 100% de certeza é inatingível, exceto pela teimosia e abandono do pensamento racional. Se você responde 'provavelmente' ou 'muito provavelmente' sim ou não para a pergunta 'deus existe?', parabéns. Você é teísta ou ateísta. Crença aqui é usada num sentido filosófico e nada tem com fé. É apenas o nível de credibilidade que se dá a uma hipótese....

São formas de amor

Despertar para o problema, levantar a pessoa caída, promover as novas de cada dia e desfazer ilusões vazias: tudo isso são formas de amor. Saber que outres te ajudam quando estiver caindo, e, sabendo-se pequena vida, somar-se à luta coletiva: tudo isso provêm do amor. Não ama quem suplica junto ao deus dos israelistas ou a qualquer divindade ou buda. Ama quem luta e predica que só a luta muda a vida. Dar-se sem esperar do céu, virtudes mágicas, nirvanas e promessas supramundanas ou quaisquer outras moedinhas: são formas de amor. Quem dá de si pela publicidade, ou para fingir-se humilde: essa pessoa não ama. Envenena quem ensina que a verdade vem de cima, pois só nossas mentes sabem. Quem fala da bandeira negra e com as mãos de carne viva não colhe flores, mas as aviva: essa pessoa tem amor. Quem lhe promete para sempre livrar-lhe de viver por si e para si: essa pessoa deseja roubar  de você tudo que tem. Mais ainda quem promete milagre. Mais ainda quem sugere que melhor seria deixa...

Sobre a agamia

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 A algum tempo fiz séries e séries de textos acerca da agamia. Os textos foram removidos e as postagens, apagadas. Os debates que estavam surgindo eram sinceros da minha parte, mas em algum momento notei que a noção de agamia tem alguns problemas e resolvi abandonar a produção de textos sobre esse tema e refletir mais profundamente sobre discussões de não-monogamia antes de continuar a produzir qualquer conteúdo. O referente mais importante de meus estudos tem sido o amor livre tal e qual no anarquismo social. Irei revisitar literaturas diversa e estudos sobre as muitas formas de não-monogamia e críticas feministas e pós-feministas dessa questão. Tentarei compreender as posições marxistas e retomar uma posição anarquista em resposta (pelo menos é o que penso que tentarei fazer, mas posso mudar de ideia conforme estudo a questão e chegar a uma posição que nem conheço). É preciso explicar que com que ideias da agamia tive consonância e quais tive discordância. 1) O projeto tem uma cr...