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Mostrando postagens com o rótulo Espiritualidade

O problema com o budismo

Sempre que surgem críticas à religião pelos muitos problemas sociais, psicológicos e ideológicos causados por esse tipo de doutrinas, alguém vai dizer que o budismo não é assim. As outras religiões sim, o budismo não. Existe uma percepção, especialmente comum no ocidente, de que o budismo é uma forma de pensamento superior às demais religiões e ideologias religiosas/espirituais (1). Oras, muitas vezes nos dirão que o budismo não é uma religião, mas sim uma filosofia de vida, ou algo assim mais elevado que “meras religiões”. Essa é uma percepção problemática, na minha opinião. Existe uma espécie de mistificação do budismo nesse sentido que acredito que precisamos superar para apontar problemas sérios. O budismo não é uma filosofia de vida superior às demais doutrinas religiosas/espirituais e compartilha com elas muitos de seus problemas e limitações. As críticas que se fazem à religião organizada encaixam como uma luva para o budismo também. Esse é meu principal argumento. Aliás, é comp...

Meditação sem objeto

Por vezes, meditar com um objeto específico (a respiração, a sensação de partes do corpo, mantra, a posição, estados emocionais amorosos, uma disciplina rígida na forma etc.) nos dá uma sensação de âncora para conter os pensamentos e emoções quotidianos que parecem interferir e não ser adequados. Porém, ao mesmo tempo, acaba limitando a experiência a esse objeto e a essa mentalidade. A meditação profunda produz uma sensação de paz extrema e felicidade sem motivação externa. Normalmente, ela envolve abandonar esses objetos meditativos pouco a pouco durante o refinamento do estado meditativo. A respiração, por exemplo, vai ficando mais sutil e profunda e já não produz movimentos no abdômen. A sensação do corpo se perde com o amortecimento total da posição firme. A disciplina zen se torna uma segunda natureza e não mais incomoda. E assim por diante. A partir daí, se entra em jhana (estado meditativo sublime e profundo) e já não há mais objeto meditativo. Na prática do Dzogchen, existe um ...

Meditação Laica - sua origem e potencial

A meditação no estilo jhana (sânsc. " dhyana ") talvez seja a mais comum representação que a palavra "meditação" evoque hoje em dia: uma pessoa de pernas cruzadas na posição de lótus e as mãos descansando sobre os joelhos ou aninhadas no colo. O imaginário popular atribui a tal prática uma série de possibilidades: o poder de concentração até o “esvaziamento da mente", a "purificação" das energias (num sentido pseudocientífico da palavra), uma panaceia contra quaisquer transtornos mentais, poderes paranormais, a produção de experiências de transe e transcendência... Talvez até a iluminação! Apesar da romantização e da grave influência de crenças sobrenaturalistas asiáticas, existe alguma verdade nos benefícios para a saúde mental e física. O jhana nasceu na antiguidade no subcontinente indiano (provavelmente entre os séculos X e VI a.C.). Ingressou no mundo como uma prática religiosa de seitas hindus. Sua popularidade fora da Ásia aumentou na segunda...

As relações "afetivas" e a intimidade

Relações afetivas geralmente são descritas como aquelas que incluem elementos românticos/sexuais ou semelhantes (podem ser assexuais, mas tem uma intimidade amatonormativa). Essa definição não é exaustiva, pois é reconhecido que as relações de amizade, familiares e até profissionais têm (ou podem ter) uma dimensão afetiva e amorosa. A Anarquia Relacional vem criticar a ideia de que um afeto "de casal" seja mais verdadeiro ou seja "o amor", uma crítica que superou os paradigmas do século XX (quando a palavra "amor" era basicamente voltada para a lógica do casal/polículo).   * A intimidade é um elemento que as relações humanas podem ver acontecer de formas diversas e cuja classificação desafia a normatividade. Nossa cultura gamocêntrica considera o amor romântico e de casal mais amoroso, mais afetivo e mais íntimo e isso tem relação com ideologias de controle social perigosas e opressivas. A Anarquia Relacional é fundada na dissolução da forma-casal como ide...

O amor livre e os relacionamentos

Chega a hora de eu me pronunciar de modo mais amadurecido sobre o amor livre segundo a uma compreensão que desenvolvi de estudos de não-monogamia com influências dos debates ao longo da história da não-monogamia: o amor livre anarquista, o poliamor, a não-monogamia política, a anarquia relacional e a agamia, tudo lido com as lentes do anarquismo social - não do marxismo. Eu chamarei essa proposta de "amor livre" sempre, entendido como o amor livre do século 21, ou o meu amor livre. "Estar num relacionamento". Essa frase evoca, como qualquer outra, alguns significados mais usuais, o que indica uma hierarquia simbólica - uma forma de determinar quais representações são mais poderosas e centrais na nossa cultura. Se eu lhe disser que "estou num relacionamento", logo se supõe que seja um relacionamento "amoroso" (na falta de um nome melhor). Isso é um sinal claro de que esssa forma de relação é mais importante nas sociedades gamocêntricas que vivemos...

Os ganhos de uma meditação materialista

A meditação sem doutrinação ascética budista/hindu tem um potencial muito maior de produzir o autoconhecimento. Não há mais três ideias malignas e corruptas dessas doutrinas: 1. A ideia de que há estados mentais (pensamentos, emoções, sensações etc.) bons ou maus em essência, levando a exaltar uns e reprimir os outros. Essa ideia de dirigir a mente e policiar o pensamento leva à distorção da experiência psíquica; 2. A ideia de que existem estados "vazios" ou "puros" nos quais a mente tem algum tipo libertação ou revelação, o que reforça sugestionamentos para confirmar as superstições; 3. A perseguição do êxtase, isto é, de absorção meditativa que produz estados alterados de consciência geralmente em retiros com privação sono, alimentação irregular, recitação monótona e hipnótica de texto em língua morta e a contemplação de manuais que descrevem tais estados de consciência. Estes são a base para a ideologia religiosa se legitimar, afinal tal êxtase é lido pela mente ...

Como é a vida sem religião

Eu já não tenho paciência para meias palavras. Prefiro o jogo limpo: são bobagens ideias religiosas que ontem eu defendia. Não me envergonho de ter modificado minhas opiniões muitas vezes a longo da vida. Tudo isso está indo numa direção de mais clareza e bom-senso, uma depuração. Por exemplo, antes de ser budista, eu acreditava num universalismo "salada mística". Cabala, espiritismo, hinduísmo, Osho: pode mandar. Tudo é válido. Só que isso tem uma consistência de diarreia, porque cada um fala uma coisa e nada faz sentido. Eu sentia que estava, no fundo, falando um monte de bobagens bonitinhas e superficiais. O universalismo é superficial.  O budismo é coerente internamente como um sistema fechado em si mesmo, algo que tem uma direção mais ou menos definida, apesar das centenas de seitas budistas acrescentarem a confusão sectária. Às vezes, pensando em ter acreditado em coisas como carma e autorregulação cósmica da justiça moral, fico decepcionado comigo mesmo e penso como pu...

Materialismo e maravilhamento

Pergunta: O materialismo não é muito seco e desprovido de poesia? Sigo uma religião pela beleza de suas narrativas e pela singeleza de suas mensagens. Eu: A pessoa materialista tem um maravilhamento com a vida até maior que uma pessoa iludida. Não precisa de personagen e de simplificar as complexidades. O pensamento desejoso não tenta moldar nem o cosmo nem a natureza humana com delírios que na verdade são feios e fadados a se tornar a zombaria de gerações vindouras. Os mistérios do universo encantam. A poesia da natureza é muitas vezes mais surpreendente que a imaginação dos teólogos e místicos. Estes tem uma criatividade bem lamentável, na verdade  Um poema: O sábio do Tibete ou da Índia num tempo de Govinda e Gopala prega um vazio um tanto vago, que não me parede nada: "Não tente nada, não deseje nada. Esteja sempre na mente pura sem um grão de poeira, sem desejar nem adicionar." Sinto muito, não sou estátua. Que o vazio é vazio, todos sabem e que sua mente é vazia  já sus...

São formas de amor

Despertar para o problema, levantar a pessoa caída, promover as novas de cada dia e desfazer ilusões vazias: tudo isso são formas de amor. Saber que outres te ajudam quando estiver caindo, e, sabendo-se pequena vida, somar-se à luta coletiva: tudo isso provêm do amor. Não ama quem suplica junto ao deus dos israelistas ou a qualquer divindade ou buda. Ama quem luta e predica que só a luta muda a vida. Dar-se sem esperar do céu, virtudes mágicas, nirvanas e promessas supramundanas ou quaisquer outras moedinhas: são formas de amor. Quem dá de si pela publicidade, ou para fingir-se humilde: essa pessoa não ama. Envenena quem ensina que a verdade vem de cima, pois só nossas mentes sabem. Quem fala da bandeira negra e com as mãos de carne viva não colhe flores, mas as aviva: essa pessoa tem amor. Quem lhe promete para sempre livrar-lhe de viver por si e para si: essa pessoa deseja roubar  de você tudo que tem. Mais ainda quem promete milagre. Mais ainda quem sugere que melhor seria deixa...

A inconsistência da reencarnação

A pergunta: Se existe reencarnação, como a população da Terra mais que dobrou? R: Aquelus que acreditam em renascimento ou reencarnação têm muitas abordagens diferentes. Budistas negam a possibilidade de conhecer o início do samsara ("a perambulação"). Não aceitam que é uma alma que encarna, mas sim carma ("ação") de um ser que partiu e ficou sem resolução. O darma ("a lei") determina que uma nova manifestação nasça para lidar com o carma não resolvido. A manifestação não precisa ser humana ou estar na Terra. Pode ser em outros mundos, pode ser em outras dimensões.  Agora, muitas doutrinas hindus pregam que existe um atman ("eu"), que é como uma alma e viaja ao redor do universo, tendo nascido em muitos reinos, formas e planetas. Portanto, o número de seres seria infinito. O carma seria uma das leis de um deus e significa "ação que envolve o ser nas tramas no samsara", enquanto outra lei seria o darma, que basicamente significa "se...

A libertação de todas as ilusões

Todas as pessoas já nasceram com nirvana (=extinção em sânscrito) no sentido que não existe um ciclo de nascimento e morte que as prende. Não há que vigiar os pensamentos para se aperfeiçoar e se tornar de uma sabedoria transcendente, que, afinal, não existe. O mundo das ideias perfeitas não existe, sendo uma abstração metafórica que foi levada a sério demais por cultistas do nada. Não há samsara (=perambulação em sânscrito). Essa vida é uma jornada que tem um fim permanente para esse conjunto confuso de personalidades inconsistentes. Não há nenhuma mente inorgânica que salta para outra dimensão. Isso sabemos. A mente é um produto do cérebro. Não houve uma queda da graça divina porque não há deus que tenha criado um ideal perfeito. Tudo isso é só muito querer de quem exige uma transcendência, um modo de dar conta do que ignoramos, mas fingir saber não adianta. São histórias da carochinha para amansar a plebe que a classe patrícia patrocina para poder seguir no roubo, no assassinato e n...

A meditação libertária

O ideal libertário envolve uma busca de emancipação humana e a construção do potencial humano ao máximo. Ele questiona qualquer idolatria, confusão, qualquer forma externa ou introjetada de autoritarismo. Com isso, o florescimento da espiritualidade é o maior possível quando o ideal libertário é internalizado. A prática da meditação para mim foi adquirida dentro de ideias ascéticos: fui budista e aprendi métodos de meditação tradicionais do theravada, do zen-budismo e do dzogchen, tradições que possuem lastro nas doutrinas ascética do buda. Além disso, tive contato com o mindfulness, tradição laica que ainda tem muito lastro nesses ideais. Qualquer vestígio de doutrina do além é muito! Por isso, o que tenho a oferecer falará mais a quem já medita num ideal esotérico, para quem já tem alguma prática contemplativa ou de internalização. Não tenho um manual positivo a oferecer ainda, mas um manual de desconstrução do sagrado, pois é onde me localizo hoje. Passei semanas sem meditar para me...