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Mostrando postagens com o rótulo Neuroética

Grupos Anônimos (12 passos) são um problema sério

Eu costumava ter transtorno de uso de álcool. Muitas pessoas conhecem as famosas comunidades terapêuticas baseadas nos 12 passos, como Alcoólicos Anônimos e outros grupos Anônimos (Al-Anon, Dependentes de Amor e Sexo, Narcóticos, Nicotina, etc.). Participei desses grupos após ter contato com uma pessoa da mesma religião que praticava na época, e tive uma experiência tão horrível com a mentalidade desses grupos que até colocou em risco minha recuperação desse transtorno por algum tempo. Esses grupos funcionam basicamente através de cura pela fé: a pessoa recebe a sugestão insistente de que deveria seguir doze passos para recuperação. Os passos são: 1º. Admitimos que éramos impotentes perante a nossa adicção, que nossas vidas tinham se tornado incontroláveis. 2º. Viemos a acreditar que um Poder maior do que nós poderia devolver-nos à sanidade. 3º. Decidimos entregar nossa vontade e nossas vidas aos cuidados de Deus, da maneira como nós O compreendíamos. 4º. Fizemos um profundo e destemid...

Meditação sem objeto

Por vezes, meditar com um objeto específico (a respiração, a sensação de partes do corpo, mantra, a posição, estados emocionais amorosos, uma disciplina rígida na forma etc.) nos dá uma sensação de âncora para conter os pensamentos e emoções quotidianos que parecem interferir e não ser adequados. Porém, ao mesmo tempo, acaba limitando a experiência a esse objeto e a essa mentalidade. A meditação profunda produz uma sensação de paz extrema e felicidade sem motivação externa. Normalmente, ela envolve abandonar esses objetos meditativos pouco a pouco durante o refinamento do estado meditativo. A respiração, por exemplo, vai ficando mais sutil e profunda e já não produz movimentos no abdômen. A sensação do corpo se perde com o amortecimento total da posição firme. A disciplina zen se torna uma segunda natureza e não mais incomoda. E assim por diante. A partir daí, se entra em jhana (estado meditativo sublime e profundo) e já não há mais objeto meditativo. Na prática do Dzogchen, existe um ...

Meditação Laica - sua origem e potencial

A meditação no estilo jhana (sânsc. " dhyana ") talvez seja a mais comum representação que a palavra "meditação" evoque hoje em dia: uma pessoa de pernas cruzadas na posição de lótus e as mãos descansando sobre os joelhos ou aninhadas no colo. O imaginário popular atribui a tal prática uma série de possibilidades: o poder de concentração até o “esvaziamento da mente", a "purificação" das energias (num sentido pseudocientífico da palavra), uma panaceia contra quaisquer transtornos mentais, poderes paranormais, a produção de experiências de transe e transcendência... Talvez até a iluminação! Apesar da romantização e da grave influência de crenças sobrenaturalistas asiáticas, existe alguma verdade nos benefícios para a saúde mental e física. O jhana nasceu na antiguidade no subcontinente indiano (provavelmente entre os séculos X e VI a.C.). Ingressou no mundo como uma prática religiosa de seitas hindus. Sua popularidade fora da Ásia aumentou na segunda...

Os ganhos de uma meditação materialista

A meditação sem doutrinação ascética budista/hindu tem um potencial muito maior de produzir o autoconhecimento. Não há mais três ideias malignas e corruptas dessas doutrinas: 1. A ideia de que há estados mentais (pensamentos, emoções, sensações etc.) bons ou maus em essência, levando a exaltar uns e reprimir os outros. Essa ideia de dirigir a mente e policiar o pensamento leva à distorção da experiência psíquica; 2. A ideia de que existem estados "vazios" ou "puros" nos quais a mente tem algum tipo libertação ou revelação, o que reforça sugestionamentos para confirmar as superstições; 3. A perseguição do êxtase, isto é, de absorção meditativa que produz estados alterados de consciência geralmente em retiros com privação sono, alimentação irregular, recitação monótona e hipnótica de texto em língua morta e a contemplação de manuais que descrevem tais estados de consciência. Estes são a base para a ideologia religiosa se legitimar, afinal tal êxtase é lido pela mente ...

Fragmentos Irreligiosos V

O darma dos budas de todos os tempos é um ensinamento que vê tudo que temos como verdade como meras ilusões e criações da nossa confusão existencial. Essa própria doutrina nasce da confusão existencial de quem a escreveu (um corpo de monges celibatários num período próximo ao começo da era cristã). Nada poderia ser mais fantasioso que esse tipo de visão que confunde delírios sugestionados de ascetas famintos e com privação de sono com algum tipo de revelação. Talvez fosse conveniente num tempo de miséria, exploração e guerras brutais negar a existência do mundo e da realidade do próprio eu. A partir dessas doutrinas que desprezam a vida natural, se construiu um monumento à míngua da humanidade, à demolição de seu potencial como espécie e um amor à aniquilação da própria existência. Ora, Nibbana significa "aniquilação", o mesmo que ir além dessa existência. É, essencialmente, um culto do além-vida como uma promessa de cessação de nossos infortúnios. Daí que os sistemas de medi...

Fragmentos irreligiosos IV

 Fora do materialismo como perspectiva para compreender não somente a economia e a sociedade, mas também as ideologias e a metafísica estão concepções idealistas, nas quais as superstições e os mitos estão como elegantes convidados. Em tempos de mais esclarecimento e do avanço das ciências como modelos explicativos satisfatórios, o mito agora ganha um verniz de crença inofensiva que anda de mãos com a ciência. Supõe-se que deveríamos esquecer que por milênios a religião foi a causa de muitos limites ao livre pensamento e ao avanço de nossa compreensão do universo, e até de filosofias satisfatórias para lidar com questões espirituais da humanidade.  É preciso dizer de novo e de novo à exaustão: as crenças no sobrenatural, em darmas (leis cósmicas), na magia, na oração, em divindades, espíritos, demônios e possessão, assim como numa essência humana segundo a descrição dos textos religiosos são obstáculos para o desenvolvimento de nosso conhecimento. Não se tratam de questões nat...

A inconsistência da reencarnação

A pergunta: Se existe reencarnação, como a população da Terra mais que dobrou? R: Aquelus que acreditam em renascimento ou reencarnação têm muitas abordagens diferentes. Budistas negam a possibilidade de conhecer o início do samsara ("a perambulação"). Não aceitam que é uma alma que encarna, mas sim carma ("ação") de um ser que partiu e ficou sem resolução. O darma ("a lei") determina que uma nova manifestação nasça para lidar com o carma não resolvido. A manifestação não precisa ser humana ou estar na Terra. Pode ser em outros mundos, pode ser em outras dimensões.  Agora, muitas doutrinas hindus pregam que existe um atman ("eu"), que é como uma alma e viaja ao redor do universo, tendo nascido em muitos reinos, formas e planetas. Portanto, o número de seres seria infinito. O carma seria uma das leis de um deus e significa "ação que envolve o ser nas tramas no samsara", enquanto outra lei seria o darma, que basicamente significa "se...

A liberdade religiosa e o livre-pensamento

 No que consiste o livre-pensamento? Muita confusão aqui porque muitas pessoas pensam que este é apenas o pensamento desinibido de qualquer convenção, livre para cada um segundo seu contexto. E de algum modo isso poderia ser verdade se o pensamento da humanidade não estivessse localizado numa história de restrições, imposições, colonizações e diversas outras formas de coerção. Porém, se compreendermos o pensamento ao longo da história como um processo inserido em conflitos e desigualdades, é muito difícil usar uma definição tão essencialista e suspensa de historicidade e materialismo. E o livre-pensamento é um filho do materialismo na sociologia e na filosofia, é uma categoria que compreende a coerção e as ideologias que têm amarrado o pensamento e que pretende criticá-las. Não seria necessário afirmar o livre-pensamento se houvese uma suposta comunidade harmoniosa em que o pensamento em si já é livre e na qual a individualidade está suspensa de determinações muitas vezes restritiv...

A libertação de todas as ilusões

Todas as pessoas já nasceram com nirvana (=extinção em sânscrito) no sentido que não existe um ciclo de nascimento e morte que as prende. Não há que vigiar os pensamentos para se aperfeiçoar e se tornar de uma sabedoria transcendente, que, afinal, não existe. O mundo das ideias perfeitas não existe, sendo uma abstração metafórica que foi levada a sério demais por cultistas do nada. Não há samsara (=perambulação em sânscrito). Essa vida é uma jornada que tem um fim permanente para esse conjunto confuso de personalidades inconsistentes. Não há nenhuma mente inorgânica que salta para outra dimensão. Isso sabemos. A mente é um produto do cérebro. Não houve uma queda da graça divina porque não há deus que tenha criado um ideal perfeito. Tudo isso é só muito querer de quem exige uma transcendência, um modo de dar conta do que ignoramos, mas fingir saber não adianta. São histórias da carochinha para amansar a plebe que a classe patrícia patrocina para poder seguir no roubo, no assassinato e n...

A meditação libertária

O ideal libertário envolve uma busca de emancipação humana e a construção do potencial humano ao máximo. Ele questiona qualquer idolatria, confusão, qualquer forma externa ou introjetada de autoritarismo. Com isso, o florescimento da espiritualidade é o maior possível quando o ideal libertário é internalizado. A prática da meditação para mim foi adquirida dentro de ideias ascéticos: fui budista e aprendi métodos de meditação tradicionais do theravada, do zen-budismo e do dzogchen, tradições que possuem lastro nas doutrinas ascética do buda. Além disso, tive contato com o mindfulness, tradição laica que ainda tem muito lastro nesses ideais. Qualquer vestígio de doutrina do além é muito! Por isso, o que tenho a oferecer falará mais a quem já medita num ideal esotérico, para quem já tem alguma prática contemplativa ou de internalização. Não tenho um manual positivo a oferecer ainda, mas um manual de desconstrução do sagrado, pois é onde me localizo hoje. Passei semanas sem meditar para me...

A espiritualidade da matéria e a materialidade do espírito

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Salvando a espiritualidade e o autoconhecimento dos discípulos do nada A palavra "espiritualidade" hoje pode ser vista como sinônimo de algo esotérico / essencialista, ou seja, a busca de uma conexão com um universo energético que tem consciência (uma ideia humana de consciência) ou que pode proporcionar vantagens e enriquecimento espiritual à pessoa que empreende essa busca. Poder-se-ia pensar que uma divindade criadora, uma inteligência desencorporada que se importa conosco e que é toda benevolente deseja se relacionar conosco. Ou há um darma, uma lei do cosmo que podemos aprender a cavalgar para além da razão e emoção confusas, atingindo um despertar da consciência. São ideias que a humanidade construiu do que é espiritualidade e que condizem com culturas onde havia uma ideia teleológica (existe um objetivo para a existência), metafísica (a possibilidade de um fundamento da existência além da realidade material) e ascética (uma ideia de que a vida psicológica real e o mund...

O amor budista é amargo

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Em primeiro, é preciso dizer que o budismo foi a minha religião por aproximadamente 5 anos. Conheço suas doutrinas pela parte do texto sagrado de muitas tradições. Conversei com professores dessas tradições e trouxe dúvidas, às quais me responderam sempre. Me envolvi. Tive contato com palestras dadas em retiro por legítimos professores tradicionais do mundo todo. Ao fim se tudo isso, hoje me considero adármico, ou seja, não-budista e descrente num darma (abaixo explicado) justamente por conta do conhecimento suficientemente aprofundado das doutrinas e das práticas. O budismo é uma religião ou filosofia? Na Ásia considera-se que é uma religião, inclusive sendo a religião oficial de países inteiros. Temos o buda, Sidarta Gautama, que recebe honras como o fundador humano dessa religião/doutrina e como um ser perfeito e liberto do sofrimento. Temos budas de outras eras mitológicas ou budas celestiais/metafísicos. Existe no budismo elementos de teleologia e a cosmologia correspondente. Ele ...