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Mostrando postagens com o rótulo Política

Grupos Anônimos (12 passos) são um problema sério

Eu costumava ter transtorno de uso de álcool. Muitas pessoas conhecem as famosas comunidades terapêuticas baseadas nos 12 passos, como Alcoólicos Anônimos e outros grupos Anônimos (Al-Anon, Dependentes de Amor e Sexo, Narcóticos, Nicotina, etc.). Participei desses grupos após ter contato com uma pessoa da mesma religião que praticava na época, e tive uma experiência tão horrível com a mentalidade desses grupos que até colocou em risco minha recuperação desse transtorno por algum tempo. Esses grupos funcionam basicamente através de cura pela fé: a pessoa recebe a sugestão insistente de que deveria seguir doze passos para recuperação. Os passos são: 1º. Admitimos que éramos impotentes perante a nossa adicção, que nossas vidas tinham se tornado incontroláveis. 2º. Viemos a acreditar que um Poder maior do que nós poderia devolver-nos à sanidade. 3º. Decidimos entregar nossa vontade e nossas vidas aos cuidados de Deus, da maneira como nós O compreendíamos. 4º. Fizemos um profundo e destemid...

O problema com o budismo

Sempre que surgem críticas à religião pelos muitos problemas sociais, psicológicos e ideológicos causados por esse tipo de doutrinas, alguém vai dizer que o budismo não é assim. As outras religiões sim, o budismo não. Existe uma percepção, especialmente comum no ocidente, de que o budismo é uma forma de pensamento superior às demais religiões e ideologias religiosas/espirituais (1). Oras, muitas vezes nos dirão que o budismo não é uma religião, mas sim uma filosofia de vida, ou algo assim mais elevado que “meras religiões”. Essa é uma percepção problemática, na minha opinião. Existe uma espécie de mistificação do budismo nesse sentido que acredito que precisamos superar para apontar problemas sérios. O budismo não é uma filosofia de vida superior às demais doutrinas religiosas/espirituais e compartilha com elas muitos de seus problemas e limitações. As críticas que se fazem à religião organizada encaixam como uma luva para o budismo também. Esse é meu principal argumento. Aliás, é comp...

A lógica criacionista se derrota a si mesma

Muitas pessoas que acreditam num deus criador não se metem a pensar que essa ideia tem alguma comprovação: dizem que procede da fé. Esta é uma postura honesta e respeitável. Porém, umas poucas pessoas desonestas intelectualmente querem fingir que essas ideias podem ser absolutamente conhecidas pelo intelecto através de pensamento indutivo e dedutivo. Inventam vastos campos de construtos pseudo-lógicos para cuspir a conclusão: só pode ter sido o universo criado por um deus eterno. Depois de todo o cansado trabalho de suas falácias, com o intelecto insatisfeito (se o possuem), buscam atacar a quem percebem como seus rivais, as pessoas ateias ‐ nós. Dizem de nossa posição: "Vocês estão fora da sanidade por querer propor que o universo surgiu de um passe de mágica." Que afirmação tão ousada quanto estúpida! Minha boa alma iludida, preste atenção e anote bem: o ateísmo não afirma nada sobre a origem de nada no universo. Não temos o compromisso nem o dever de explicar coisas que nã...

Como é a vida sem religião

Eu já não tenho paciência para meias palavras. Prefiro o jogo limpo: são bobagens ideias religiosas que ontem eu defendia. Não me envergonho de ter modificado minhas opiniões muitas vezes a longo da vida. Tudo isso está indo numa direção de mais clareza e bom-senso, uma depuração. Por exemplo, antes de ser budista, eu acreditava num universalismo "salada mística". Cabala, espiritismo, hinduísmo, Osho: pode mandar. Tudo é válido. Só que isso tem uma consistência de diarreia, porque cada um fala uma coisa e nada faz sentido. Eu sentia que estava, no fundo, falando um monte de bobagens bonitinhas e superficiais. O universalismo é superficial.  O budismo é coerente internamente como um sistema fechado em si mesmo, algo que tem uma direção mais ou menos definida, apesar das centenas de seitas budistas acrescentarem a confusão sectária. Às vezes, pensando em ter acreditado em coisas como carma e autorregulação cósmica da justiça moral, fico decepcionado comigo mesmo e penso como pu...

São formas de amor

Despertar para o problema, levantar a pessoa caída, promover as novas de cada dia e desfazer ilusões vazias: tudo isso são formas de amor. Saber que outres te ajudam quando estiver caindo, e, sabendo-se pequena vida, somar-se à luta coletiva: tudo isso provêm do amor. Não ama quem suplica junto ao deus dos israelistas ou a qualquer divindade ou buda. Ama quem luta e predica que só a luta muda a vida. Dar-se sem esperar do céu, virtudes mágicas, nirvanas e promessas supramundanas ou quaisquer outras moedinhas: são formas de amor. Quem dá de si pela publicidade, ou para fingir-se humilde: essa pessoa não ama. Envenena quem ensina que a verdade vem de cima, pois só nossas mentes sabem. Quem fala da bandeira negra e com as mãos de carne viva não colhe flores, mas as aviva: essa pessoa tem amor. Quem lhe promete para sempre livrar-lhe de viver por si e para si: essa pessoa deseja roubar  de você tudo que tem. Mais ainda quem promete milagre. Mais ainda quem sugere que melhor seria deixa...

A inconsistência da reencarnação

A pergunta: Se existe reencarnação, como a população da Terra mais que dobrou? R: Aquelus que acreditam em renascimento ou reencarnação têm muitas abordagens diferentes. Budistas negam a possibilidade de conhecer o início do samsara ("a perambulação"). Não aceitam que é uma alma que encarna, mas sim carma ("ação") de um ser que partiu e ficou sem resolução. O darma ("a lei") determina que uma nova manifestação nasça para lidar com o carma não resolvido. A manifestação não precisa ser humana ou estar na Terra. Pode ser em outros mundos, pode ser em outras dimensões.  Agora, muitas doutrinas hindus pregam que existe um atman ("eu"), que é como uma alma e viaja ao redor do universo, tendo nascido em muitos reinos, formas e planetas. Portanto, o número de seres seria infinito. O carma seria uma das leis de um deus e significa "ação que envolve o ser nas tramas no samsara", enquanto outra lei seria o darma, que basicamente significa "se...

A liberdade religiosa e o livre-pensamento

 No que consiste o livre-pensamento? Muita confusão aqui porque muitas pessoas pensam que este é apenas o pensamento desinibido de qualquer convenção, livre para cada um segundo seu contexto. E de algum modo isso poderia ser verdade se o pensamento da humanidade não estivessse localizado numa história de restrições, imposições, colonizações e diversas outras formas de coerção. Porém, se compreendermos o pensamento ao longo da história como um processo inserido em conflitos e desigualdades, é muito difícil usar uma definição tão essencialista e suspensa de historicidade e materialismo. E o livre-pensamento é um filho do materialismo na sociologia e na filosofia, é uma categoria que compreende a coerção e as ideologias que têm amarrado o pensamento e que pretende criticá-las. Não seria necessário afirmar o livre-pensamento se houvese uma suposta comunidade harmoniosa em que o pensamento em si já é livre e na qual a individualidade está suspensa de determinações muitas vezes restritiv...

Quiriarquia, quiriarcado

 Esse termo foi cunhado pela autora feminista Elisabeth Schüssler Fiorenza em 1992 em seu livro "But She Said: Feminist Practices of Biblical Interpretation".   Surgido no seio de uma leitura feminista e crítica da teologia cristã, o termo ganhou vida na caneta e nos teclados de outres pensadorus ao longo dos anos seguintes, sendo incorporado à uma sociologia anarquista. Isso aconteceu porque o anarquismo já tinha o conceito de quiriarquia funcionando dentro dos seus textos e interpretações de mundo, só não tendo uma expressão efetiva unificada para descrever todos os fenômenos que essa palavra contém sozinha. Então vamos à definição mais tradicional: quiriarquia (no original em inglês,  kiriarchy ) vem para descrever uma instância superior ao patriacado no que tange os sistemas de privilégio, isto é, não descrevendo apenas o domínio do pai sobre a família e do homem sobre a sociedade, mas sistemas de hierarquia em geral que também atuam em conjunto com o machis...

Fanny Kaplan vive!

Nesse dia, em 1918, a heroica Fanny Kaplan atirava no primeiro secretário do partido bolchevique, o ditador Vladimir Lênin. Escrevi algo sobe noutra ocasião: Fanny Kaplan está em mim. Gloriosa sua memória seja, essa potente dissidente que alvejou o traidor Lênin. Tivesse acertado mais alguns tiros mal não teria sido; quisera tivesse rompido a face da besta. Mas ela cumpriu seu ato e com bravura enfrentou a guilhotina dos jacobinos. Os cultistas, em alvoroço, tremiam a ver sangrar o ídolo, apenas um burguês coxo. Era isso, um sonho de poder que a história narra os horrores. Aquele trêmulo burguês vendo que era humano apenas, conquanto sumo-sacerdote do culto. Viriam outros traidores? Sem dúvida, mas o ato dizia: "Socialistas, armas em riste! Liquidem todos os algozes!" Fanny Kaplan exaltada será na memória do socialismo quando este vier a triunfar. As ruínas que pensamos herdar eram de cidades abandonadas e um mundo coberto de cápsulas das armas de guerras incontáveis. Herdamo...

A espiritualidade da matéria e a materialidade do espírito

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Salvando a espiritualidade e o autoconhecimento dos discípulos do nada A palavra "espiritualidade" hoje pode ser vista como sinônimo de algo esotérico / essencialista, ou seja, a busca de uma conexão com um universo energético que tem consciência (uma ideia humana de consciência) ou que pode proporcionar vantagens e enriquecimento espiritual à pessoa que empreende essa busca. Poder-se-ia pensar que uma divindade criadora, uma inteligência desencorporada que se importa conosco e que é toda benevolente deseja se relacionar conosco. Ou há um darma, uma lei do cosmo que podemos aprender a cavalgar para além da razão e emoção confusas, atingindo um despertar da consciência. São ideias que a humanidade construiu do que é espiritualidade e que condizem com culturas onde havia uma ideia teleológica (existe um objetivo para a existência), metafísica (a possibilidade de um fundamento da existência além da realidade material) e ascética (uma ideia de que a vida psicológica real e o mund...

O amor budista é amargo

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Em primeiro, é preciso dizer que o budismo foi a minha religião por aproximadamente 5 anos. Conheço suas doutrinas pela parte do texto sagrado de muitas tradições. Conversei com professores dessas tradições e trouxe dúvidas, às quais me responderam sempre. Me envolvi. Tive contato com palestras dadas em retiro por legítimos professores tradicionais do mundo todo. Ao fim se tudo isso, hoje me considero adármico, ou seja, não-budista e descrente num darma (abaixo explicado) justamente por conta do conhecimento suficientemente aprofundado das doutrinas e das práticas. O budismo é uma religião ou filosofia? Na Ásia considera-se que é uma religião, inclusive sendo a religião oficial de países inteiros. Temos o buda, Sidarta Gautama, que recebe honras como o fundador humano dessa religião/doutrina e como um ser perfeito e liberto do sofrimento. Temos budas de outras eras mitológicas ou budas celestiais/metafísicos. Existe no budismo elementos de teleologia e a cosmologia correspondente. Ele ...