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O "amor líquido" é culpa do sequestro afetivo

Quando um colega da terceira idade, o Bauman, escrevia sobre a liquidez na modernidade, eu o alertei para tomar cuidado quando chegasse na questão do amor para não reforçar a lógica gamocêntrica – seria fácil que interpretassem esse tema desse modo. Ele não me deu ouvidos e tratou a questão de modo muito lateral (por ser “careta”). Resultado: agora o termo "amor líquido" é associado com uma papagaiada em defesa do gamos (namoro, casamento e outros tipos de sequestro afetivo).  O problema principal é que o gamos, na verdade, é parte da causa da solidão e superficialidade e precariedade dos vínculos e não oposto a essas tendências. Pense no caso de uma pessoa que está procurando alguém para “assumir” (namoro, noivado, relacionamento aberto, trisal... Tudo que for descrito como "mais que amizade"). No momento em que alguma expectativa for quebrada, a pessoa tende a abandonar o contato com a outra subitamente e se afastar (mesmo que antes declarasse amores profundos). O...

Votos de Mara

 Os seres são matéria em suspensão. Faço voto de deixá-los apodrecer em paz. Os desejos são saudáveis e belos. Faço voto de entesourá-los. Os portais do conhecimento científico são a melhor aposta. Faço voto de apreendê-los. O caminho da ilusão esotérica é um veneno espiritual. Faço votos de desprezá-lo e desmantelar sua influência.

Sobre a Igreja Católica e os quase 1000 túmulos infantis

É uma surpresa que a Igreja Católica esteja ligada à um genocídio e tenha encobertado a morte de crianças indígenas e as enterrado de modo ilegal nos quintais de seus internatos? A lógica de tal instituição é o etnocídio e não deixou de ser. A face carismática tenta apenas esconder as reais intenções, que são as mesmas desde seu surgimento: precognizar uma religião única que todos aceitem e destruir os vestígios de outras culturas. Não existe um caminho de conciliação e cura, como deseja o sumo-sacerdote dessa seita. A oposição entre a liberdade de crença (ou ausência de crença) e a ideia de uma verdade revelada que tudo justifica não permite conciliação. O colonialismo não pode concilar-se com a autodeterminação dos povos. O livre-pensamento não pode existir perante autoridades da verdade absoluta conforme um tirano celeste imaginado. Temos que taxar todas as igrejas e tratar dentro da justiça tudo errado que ocorre nelas como faríamos com empresas. Todos os feriados que tenham qualqu...

O caso Lázaro Barbosa e as acusações de "bruxaria"

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Temos ouvido muito na mídia sobre o criminoso Lázaro Barbosa. Tendo matado duas pessoas no seu estado de origem, a Bahia, Lázaro fugiu do presídio e foi para Brasília, onde deu continuidade a uma série de crimes como assassinatos seriais, roubos, invasão de propriedade, agressão, sequestro, destruição de veículos e contínua resistência à prisão. O criminoso fugiu diversas vezes da polícia e ainda se encontra foragido no Goiás. Seu perfil psicológico, traçado pelos psiquiatras do sistema carcerário, é tipicamente aquele descrito informalmente como "sociopata". Em termos mais médicos, Lázaro sofre do transtorno de personalidade antissocial. Sem dúvida, os relatos de suas vítimas que sobreviveram corroboram esse diagnóstico. Enquanto está foragido, Lázaro representa um perigo terrível para a sociedade. Esperamos, com razão, que ele seja capturado e que encontre a justiça por seus crimes. Não é surpresa que alguns reacionários esperam ansiosamente por sua execução sumária e q...

O amor livre e os relacionamentos

Chega a hora de eu me pronunciar de modo mais amadurecido sobre o amor livre segundo a uma compreensão que desenvolvi de estudos de não-monogamia com influências dos debates ao longo da história da não-monogamia: o amor livre anarquista, o poliamor, a não-monogamia política, a anarquia relacional e a agamia, tudo lido com as lentes do anarquismo social - não do marxismo. Eu chamarei essa proposta de "amor livre" sempre, entendido como o amor livre do século 21, ou o meu amor livre. "Estar num relacionamento". Essa frase evoca, como qualquer outra, alguns significados mais usuais, o que indica uma hierarquia simbólica - uma forma de determinar quais representações são mais poderosas e centrais na nossa cultura. Se eu lhe disser que "estou num relacionamento", logo se supõe que seja um relacionamento "amoroso" (na falta de um nome melhor). Isso é um sinal claro de que esssa forma de relação é mais importante nas sociedades gamocêntricas que vivemos...

Os ganhos de uma meditação materialista

A meditação sem doutrinação ascética budista/hindu tem um potencial muito maior de produzir o autoconhecimento. Não há mais três ideias malignas e corruptas dessas doutrinas: 1. A ideia de que há estados mentais (pensamentos, emoções, sensações etc.) bons ou maus em essência, levando a exaltar uns e reprimir os outros. Essa ideia de dirigir a mente e policiar o pensamento leva à distorção da experiência psíquica; 2. A ideia de que existem estados "vazios" ou "puros" nos quais a mente tem algum tipo libertação ou revelação, o que reforça sugestionamentos para confirmar as superstições; 3. A perseguição do êxtase, isto é, de absorção meditativa que produz estados alterados de consciência geralmente em retiros com privação sono, alimentação irregular, recitação monótona e hipnótica de texto em língua morta e a contemplação de manuais que descrevem tais estados de consciência. Estes são a base para a ideologia religiosa se legitimar, afinal tal êxtase é lido pela mente ...

Fragmentos Irreligiosos V

O darma dos budas de todos os tempos é um ensinamento que vê tudo que temos como verdade como meras ilusões e criações da nossa confusão existencial. Essa própria doutrina nasce da confusão existencial de quem a escreveu (um corpo de monges celibatários num período próximo ao começo da era cristã). Nada poderia ser mais fantasioso que esse tipo de visão que confunde delírios sugestionados de ascetas famintos e com privação de sono com algum tipo de revelação. Talvez fosse conveniente num tempo de miséria, exploração e guerras brutais negar a existência do mundo e da realidade do próprio eu. A partir dessas doutrinas que desprezam a vida natural, se construiu um monumento à míngua da humanidade, à demolição de seu potencial como espécie e um amor à aniquilação da própria existência. Ora, Nibbana significa "aniquilação", o mesmo que ir além dessa existência. É, essencialmente, um culto do além-vida como uma promessa de cessação de nossos infortúnios. Daí que os sistemas de medi...