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O problema dos rótulos na não-monogamia contemporânea

Muitas vertentes da não-monogamia atual preferem deixar de lado alguns rótulos que descrevem relações análogas ao casal, palavras como "namorade", "espose" e outras parecidas, por uma crítica justa à carga que essas palavras realmente têm, sendo atadas a um reconhecimento social que é da cultura monogâmica e que traz assunções desse sistema para os vínculos que se quer evitar reproduzir ao máximo. Com isso, surgem expressões para substituição, pois, em muitos casos, se sente a necessidade de nomear essas relações diferentemente da amizade e de outros afetos sem esse elemento sexual-afetivo típico do que seria chamado de "relações românticas" (aqui, sem o sentido de "amor romântico" da crítica feminista).  O problema é que muitas dessas expressões de substituição são ambíguas: "amores", "vínculos", "afetos", "parceires" e outras palavras assim não se referem exclusivamente a relações com esses elementos: meu...

A importância da comunicação em relações não-normativas

Queira estejamos falando de relações românticas/sexuais ou vínculos de todos os tipos, se estamos tentando fazer algo fora das normas relacionais (monogamia, amatonormatividade, heterocisalossexismo, etc.) será importante desenvolver habilidades comunicativas e perder bloqueios com o sentar-se e conversar os detalhes sórdidos da coisa porque, se estamos atuando fora da norma, temos que ter o cuidado de evitar assumir as coisas que se reproduz sem pensar nas situações normativas. Estamos em território de "artesania relacional", havendo a necessidade patente de deixar explícitas as nossas expectativas, limites e modos de levar as coisas, buscando negociar diferenças e compreendendo de antemão o que não queremos. (1) Quando temos uma situação de indicar indiretamente, com pistas ou frases soltas, algo que sentimos ou uma necessidade que temos, pode parecer injusto que a outra pessoa não "capte" a mensagem e nos obrigue a explicar nossa emoção ou necessidade, mas isso v...

Friendzone: um conceito tóxico

Não entendo e nunca entendi o conceito de friendzone. Nunca entenderei aproximar-se de alguém somente para conseguir um relacionamento sexo-afetivo e ser legal buscando obter algum "favor especial"; penso que isso é objetificação das pessoas. Desde meus tempos monogâmicos seriais, pensava que era bom ser direto e deixar claro que queria uma relação sexual, se fosse o caso, e desenvolver sempre vínculos sem interesses fixos, sem estratégias para conquistar a pessoa ou alguma coisa assim. Me lembro de sofrer a insegurança de não saber se a pessoa gostava de mim, mas facilmente podia deixar de lado ou superar a rejeição; isso pode ter a ver com meus privilégios estéticos, de gênero, de classe social e raça, mas também tem a ver com um relacionamento romântico que tive na adolescência que me ensinou a aceitar a rejeição e buscar reciprocidade nesse caso. Para fora de minhas questões pessoais e individuais e pensando fora da lógica amatonormativa, obviamente uma obsessão em concre...

O livre-pensamento e a expressão religiosa minoritária

Uma das bases do pensamento anarquista, sedimentadas desde um espírito que supera contradições iluministas por uma saída radical, é o anticlericalismo e a oposição à crenças sobrenaturais e explicações dogmáticas, fundamentadas na autoridade espiritual. Bakunin denuncia, em seu escrito fragmentário "Deus e o Estado", que a religião é uma das bases ideológicas da exploração tanto espiritual quanto material da população por classes dominantes de líderes apoiados por sacerdotes (ou mistura das duas coisas, como reis que foram líderes de suas igrejas estatais, por exemplo). Daí em diante, o anarquismo passou por muitas novas discussões, incluindo versões mais amigáveis à religião e abertamente confessionais. Contudo, essas seguiram sendo visões minoritárias, e uma das características dos amplos movimentos anarquistas se tornou o livre-pensamento. Com o advento de abordagens críticas ao método científico e ao que se chama incorretamente de "cientificismo" (uma suposta cr...

Grupos Anônimos (12 passos) são um problema sério

Eu costumava ter transtorno de uso de álcool. Muitas pessoas conhecem as famosas comunidades terapêuticas baseadas nos 12 passos, como Alcoólicos Anônimos e outros grupos Anônimos (Al-Anon, Dependentes de Amor e Sexo, Narcóticos, Nicotina, etc.). Participei desses grupos após ter contato com uma pessoa da mesma religião que praticava na época, e tive uma experiência tão horrível com a mentalidade desses grupos que até colocou em risco minha recuperação desse transtorno por algum tempo. Esses grupos funcionam basicamente através de cura pela fé: a pessoa recebe a sugestão insistente de que deveria seguir doze passos para recuperação. Os passos são: 1º. Admitimos que éramos impotentes perante a nossa adicção, que nossas vidas tinham se tornado incontroláveis. 2º. Viemos a acreditar que um Poder maior do que nós poderia devolver-nos à sanidade. 3º. Decidimos entregar nossa vontade e nossas vidas aos cuidados de Deus, da maneira como nós O compreendíamos. 4º. Fizemos um profundo e destemid...

O problema com o budismo

Sempre que surgem críticas à religião pelos muitos problemas sociais, psicológicos e ideológicos causados por esse tipo de doutrinas, alguém vai dizer que o budismo não é assim. As outras religiões sim, o budismo não. Existe uma percepção, especialmente comum no ocidente, de que o budismo é uma forma de pensamento superior às demais religiões e ideologias religiosas/espirituais (1). Oras, muitas vezes nos dirão que o budismo não é uma religião, mas sim uma filosofia de vida, ou algo assim mais elevado que “meras religiões”. Essa é uma percepção problemática, na minha opinião. Existe uma espécie de mistificação do budismo nesse sentido que acredito que precisamos superar para apontar problemas sérios. O budismo não é uma filosofia de vida superior às demais doutrinas religiosas/espirituais e compartilha com elas muitos de seus problemas e limitações. As críticas que se fazem à religião organizada encaixam como uma luva para o budismo também. Esse é meu principal argumento. Aliás, é comp...

A lógica criacionista se derrota a si mesma

Muitas pessoas que acreditam num deus criador não se metem a pensar que essa ideia tem alguma comprovação: dizem que procede da fé. Esta é uma postura honesta e respeitável. Porém, umas poucas pessoas desonestas intelectualmente querem fingir que essas ideias podem ser absolutamente conhecidas pelo intelecto através de pensamento indutivo e dedutivo. Inventam vastos campos de construtos pseudo-lógicos para cuspir a conclusão: só pode ter sido o universo criado por um deus eterno. Depois de todo o cansado trabalho de suas falácias, com o intelecto insatisfeito (se o possuem), buscam atacar a quem percebem como seus rivais, as pessoas ateias ‐ nós. Dizem de nossa posição: "Vocês estão fora da sanidade por querer propor que o universo surgiu de um passe de mágica." Que afirmação tão ousada quanto estúpida! Minha boa alma iludida, preste atenção e anote bem: o ateísmo não afirma nada sobre a origem de nada no universo. Não temos o compromisso nem o dever de explicar coisas que nã...

Nenhuma ideia de paraíso faz nenhum sentido

Eu já expliquei porque um céu onde ficamos venerando eternamente a deus e cantando glórias seria algo bastante desagradável e infernal e que esse deus que necessitaria de louvor e nos teria criado para louvá-lo seria uma entidade que deixaria a desejar em muitos critérios do que seria um ser maximamente bom. Agora, eu desejo mostrar incoerências lógicas em qualquer ideia de paraíso que qualquer teísmo possa vir a ter. É importante definir o que eu quero dizer com "paraíso": seria a recompensa divina eterna após uma vida virtuosa e adequada na Terra. Esse é o escopo dessa crítica. (1) Bom, tendo definido o objeto da crítica, vamos partir para os pormenores da questão:  Muitas formas de teísmo, como o islamismo e tipos diferentões de cristianismo, pregam que deus vai proporcionar uma mansão no céu para as pessoas que forem salvas e que lá terão luxos e felicidade eterna, virgens (se forem homens, suponho), ruas de ouro, leite e mel... Vamos supor que seja uma metáfora, porque o...

Criticando ideias ascéticas 3

 "Por isso, vos digo: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e a quem bate, abrir-se-lhe-á. Qual dentre vós é o pai que, se o filho lhe pedir [pão, lhe dará uma pedra? Ou se pedir] um peixe, lhe dará em lugar de peixe uma cobra? Ou, se lhe pedir um ovo lhe dará um escorpião? Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?" - Lucas 11:9-13 "Nada fracassa como a oração." - Dan Barker Estudos diversos mostram que orar não é melhor que o puro acaso para obter alguma coisa, exceto no pequeno grau em que possa acalmar a mente da pessoa, como um efeito placebo. No final, a esperança na oração é a esperança de que algo no universo se importa com nossas ideias, sensações, julgamentos e destinos. Isso só pode ser pensamento desejoso. Não existe qualquer tipo de argumento que mostre que somos especial...

Criticando ideias ascéticas 2

 "(...) Não é por ter ouvido isto de outros brâmanes e contemplativos que eu lhes digo que eu vi seres que—favorecidos pela boa conduta corporal, boa conduta verbal e boa conduta mental; que não insultavam os nobres, que possuíam o entendimento correto, e que praticavam ações sob a influência do entendimento correto—na dissolução do corpo, após a morte, renasceram num destino feliz, no paraíso. É por saber por mim mesmo, tendo visto eu mesmo, entendido eu mesmo, que eu lhes digo (essas coisas) (...)" Itivuttaka 71 Ah! A joia do budismo! Você confirmará as verdades da prática por sua própria experiência. Muito melhor e diferente de fé cega, não é mesmo? Não. Isso ainda está fundado numa espécie de mentalidade ascética que é a gangrena moral de todas as religiões e crenças sobrenaturalistas: a confiança em experiências místicas. Imagina uma pessoa realizando práticas de meditação por horas todos os dias, dormindo pouco e comendo pouco, repetidamente imaginando que está inserida...

Criticando ideias ascéticas

"Aquele que não põe ninguém em dificuldades e a quem ninguém perturba, que é equânime na felicidade e na aflição, no medo e na ansiedade, me é muito querido." Baghavad Gita 12.15 Nesse texto hindu, supostamente o deus supremo se agrada com pessoas que demonstram características de pacifismo total e imperturbabilidade diante das dificuldades.  O que significaria não colocar ninguém em dificuldade? Em algum sentido, existir e ter uma perspectiva própria vai ser um pouco incômodo para outras formas de vida. A existência humana tem um impacto no planeta e nenhum convívio é totalmente neutro. A ideia de se anular para evitar colocar nossas demandas diante das relações humanas é perigosa e conservadora tanto na macro-política (abaixar a cabeça diante de qualquer exploração e opressão) como na micro-política (aguentar abusos e se submeter ao privilégio sem questionar o que nos é devido). Bom seria, então, de uma perspectiva materialista, perturbar muito e falar de coisas incômodas p...

A ideia tradicional de paraíso não faz sentido

Pensando nas representações do paraíso no cristianismo, parece que a maior parte seria adoração eterna a deus. Estamos falando de trilhões de trilhões de anos e mais gastos em adoração a esta entidade. Vocês devem ter ido a uma missa ou a um culto. Imagine que seja para todo o sempre. Quando criança, essa ideia foi importante para me tornar ateu, pois eu odiava cultos religiosos. Eles não são feitos para crianças, eu acho. Voltando ao ponto... Tal como a nossa mente é agora, uma eternidade de qualquer coisa seria entediante e até infernal. Este paraíso se tornaria um inferno. Alguém pode argumentar que a presença de deus é extática e que tornaria a adoração eterna uma espécie de bem-aventurança, mas esse argumento não salva de forma alguma a ideia de paraíso. Em vez disso, mina uma das características atribuídas a deus: o ser maximamente bom. Há duas opções aqui: ou deus distorceria a mente das pessoas para que elas se sentissem bem adorando-o, recebendo algum tipo de descarga de felic...

Agnosticismo: um conceito vandalizado por erros

Quase nenhuma termo passou por tantos problemas de distorção em seu uso histórico como "agnosticismo", assim como o rótulo binário "agnóstico" associado a ele. O agnosticismo surgiu como uma espécie de metodologia crítica de pensamento e se transformou num rótulo quase exclusivo à uma posição de incerteza diante da hipótese teísta. É uma simplificação que denota uma perda de sua dimensão profunda e necessária para o pensamento crítico. A primeira pessoa a cunhar o termo "agnosticismo" foi Thomas Huxley em 1869, e este autor o descreveu como uma metodologia , e não uma crença pessoal. Essa metodologia estabeleceria que é errado afirmar qualquer coisa para a qual não se pode produzir evidência que logicamente justifique essa asserção. Huxley saiu de seu caminho para sempre desqualificar a ideia de agnosticismo é uma crença ou uma doutrina filosófica. Ele usava seu agnosticismo como oposição a qualquer sistema doutrinário ou argumento que exigisse afirmações ...

Monogamia não é exclusividade

A monogamia não é a prática de ter relações românticas/sexuais exclusivas. A isso chamamos "relações românticas exclusivas". A monogamia é um sistema ideológico que pressupõe a existência de uma tendência humana superior de relacionar-se em casal, sendo esse uma entidade ideal e relativamente exclusiva em tema de sexo e algumas intimidades. O sistema monogâmico vem de mãos dadas com o surgimento de uma sociedade onde a propriedade privada da terra e dos meios de trabalho pode ser herdada, e portanto apoia as ideologias de clã e família que colocam um sistema de parentesco construído ao seu redor. A religião, a cultura, as práticas amorosas e tudo isso não pode estar separado dessa estrutura de propriedade privada e herança. O etos monogâmico de uma relação está no discurso que prioriza o casal e a família como mais importantes relações e coloca a amizade, os vínculos por afinidade e outros relacionamentos num lugar de não-relacionamento: estar em um Relacionamento® é ter um v...

Meditação sem objeto

Por vezes, meditar com um objeto específico (a respiração, a sensação de partes do corpo, mantra, a posição, estados emocionais amorosos, uma disciplina rígida na forma etc.) nos dá uma sensação de âncora para conter os pensamentos e emoções quotidianos que parecem interferir e não ser adequados. Porém, ao mesmo tempo, acaba limitando a experiência a esse objeto e a essa mentalidade. A meditação profunda produz uma sensação de paz extrema e felicidade sem motivação externa. Normalmente, ela envolve abandonar esses objetos meditativos pouco a pouco durante o refinamento do estado meditativo. A respiração, por exemplo, vai ficando mais sutil e profunda e já não produz movimentos no abdômen. A sensação do corpo se perde com o amortecimento total da posição firme. A disciplina zen se torna uma segunda natureza e não mais incomoda. E assim por diante. A partir daí, se entra em jhana (estado meditativo sublime e profundo) e já não há mais objeto meditativo. Na prática do Dzogchen, existe um ...

Comentando os 8 pontos da Anarquia Relacional (8)

Vou escrever sobre cada um dos 8 pontos da Anarquia Relacional criados por Andie Nordgren na Suécia em 2006. O documento foi traduzido para o inglês em 2012 por Andie e publicado aqui . Andie se preocupou em escrever sobre sua visão relacional tendo em vista ume leitoru sem conhecimento sobre o poliamor ou que estivesse mais ou menos desinformade sobre as últimas discussões no mundo do amor livre. Apesar disso, ao tempo aborda questões do debate poliamoroso que estavam em voga quando da criação do conceito da Anarquia Relacional (em 2005). É importante considerar também que sua proposta surge num congresso anarquista e que retoma a tradição libertária, uma tradição que pensa privilegiadamente as consequências das formas de união amorosas e afetivas como forma de luta. O anarquismo historicamente foi a vanguarda intelectual do amor livre, especialmente na produções de mulheres libertárias que produziram contra a monogamia, a união indissolúvel e o casamento civil ou religioso. Andie tam...

Dois anos LIVRE da crença sobrenatural: um relato

Na minha infância e adolescência, tive a sorte de não ter a religião empurrada garganta abaixo: minha mãe achava a catequese uma forma invasiva e doutrinadora de ensino e preferia que eu aprendesse a religião ou espiritualidade (1) sozinha. Não era surpreendente, então, que eu achasse igreja um lugar muito chato e nunca criasse uma ideia de reverência com o dogma cristão. Eu tenho a impressão que muitas das pessoas que têm esse forte senso de reverência são assim por doutrinação infantil. Conforme passou o tempo, eu passei a me interessar por coisas sobrenaturais e religiosas. Eu li o Livro dos Espíritos aos quinze anos, acessei ideias pagãs e panteístas ao longo dos próximos anos, li textos hindus e budistas aos vinte e comecei a consagrar a Ayahuasca em rituais neoxamânicos aos vinte e um anos, onde adquiri algumas crenças místicas que iam para um lado bem universalista. Você sabe, aquela ideia de que "todos os grandes mestres são verdadeiros", "todas as religiões cont...